25/08/2009

Entrevista com Eduardo Garofalo




O reconhecimento do talento do artista plástico paulista Eduardo Garofalo tem sido demonstrado nas participações e premiações em salões de Arte e na inclusão de obras em acervos de órgãos públicos, como o da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Nas suas telas, a fluidez das tintas é equilibrada com a dosagem precisa das massas pictóricas, temas recorrentes são fortalecidos e imagens são fundidas ao espaço. Estas qualidades técnicas originam-se na dialética entre processo e produto, um método consagrado por mestres do presente e do passado.


Pergunta: Eduardo, muito obrigado pela sua disposição para esta entrevista. Em suas obras predomina o gênero retrato. Por que a predileção?

Resposta: Obrigado, Rogério. Eu trabalho com pintura e costumo usar fotografias como referências e modelos, em sua maioria retratos. Gosto do aspecto sério e austero deste tema, seja em fotografia ou na pintura. O retrato tem de conferir dignidade ao modelo, solidez na composição e uma certa austeridade ao conjunto. Gosto dos retratos antigos, dos primórdios da Fotografia, são obras de arte que se assemelham a pinturas.


P: A pesquisa é fundamental para a estruturação da produção do artista e na orientação de seus significados. A pesquisa obstinada de Pablo Picasso manifestava-se sobretudo dentro da técnica, às vezes partindo de uma referência e mudando o contexto. Você tem séries de pinturas que usam uma só referência. Conte sobre esta exploração no seu processo de criação.

R: Atualmente uso poucas referências, para poder focalizar o trabalho e obter resultados satisfatórios. Tento criar um conjunto de trabalhos que se harmonizem ou tenham um parentesco comum, complementando-se e formando um todo único. Esse parentesco dá-se pelo tema predominante e pela uniformidade da técnica, através do gesto aplicado no uso de pincel e tinta. O resultado são séries de retratos, a partir de uma ou mais referências. Eu gostaria que cada trabalho meu fosse um resumo do conjunto formado pelas obras, e, ao mesmo tempo, uma parte deste todo. Minha pesquisa está concentrada na escolha das referências e no processo de execução da pintura. Muitas idéias e direções surgem durante o feitio de uma pintura. Pretendo expandir e aprofundar a pesquisa sobre os temas (retrato, rostos, figura humana), e sobre os materiais e suportes para pintura (atualmente utilizo tinta acrílica ou a óleo). O assunto é extenso e são inúmeras as fontes de pesquisa. Além de retratos de pessoas, também, por vezes, costumo retratar em tela objetos comuns, como um tênis ou um ventilador, ou animais e figuras míticas, dando-lhes o aspecto de um modelo posando para um retrato.


P: Que artistas mais influenciam seu trabalho? Em que qualidades eles se destacam?

R: Artistas que tenham um trabalho com identidade própria, autoral, onde a obra e o autor são associados por quem observa. Artistas que trabalham predominantemente com o desenho, a pintura e o retrato; que se aprofundam no assunto, geralmente por anos a fio, através de estudos, séries ou variações de um retrato, como fizeram Francis Bacon e outros. Gosto dos trabalhos de Jenny Saville, Marlene Dumas, Loretta Lux, Julie Heffernan, Mark Ryden. Eu também gosto dos trabalhos mais realistas do Pablo Picasso e de seus esboços e gravuras. Aprecio o trabalho de desenhistas e ilustradores virtuoses, como Roger Dean, que faz a arte dos discos do Yes, além do H.R. Giger, do Milo Manara, do Yoshitaka Amano (fez a arte das capas do Sandman). Gosto dos trabalhos dos pré-rafaelitas; das pinturas do Klimt, Egon Schiele, Odilon Redon, Chagall, Alphonse Mucha e do Modigliani; além do Expressionismo, do Renascimento, da Arte da Idade Média e da Antiguidade e a Arte Africana; gosto do trabalho do Eliseu Visconti, Almeida Jr, do Guignard, Iberê Camargo, do Volpi; enfim, muitas referências (Em tempo: também sou influenciado pelo meu próprio trabalho).


P: Boa parte de suas pinturas se aproxima do grotesco. O expressionista Egon Schiele, uma vez questionado sobre a influência deste estilo em suas obras, afirmou que as fazia porque precisavam ser feitas, agradassem ou não. E você, o que pensa disto?

R: Não considero grotescas. Eu busco pela beleza. Uma beleza digna e que tenha força, não seja ordinária ou superficial. Creio que ela não seja algo totalmente limpo, bom ou estéril. A beleza pode ter seus aspectos terríveis, seus dramas, suas cicatrizes, ou sua frieza. O grotesco parece ser um caminho, ou um estágio, em direção de tal beleza, ou é uma de suas faces. Também concordo com a frase do Schiele que você citou.



P: Como começou a se inscrever em concursos e salões? Qual a importância deles para o artista? Na sua opinião existe algum mito que ronda este tema?

R: Em 2003. Os salões podem ser um caminho, mas o artista deve se informar sobre os gastos ou ganhos que terá, já que na maioria dos salões as despesas são arcadas pelo artista. Tais eventos são muito diferentes entre si, uns bem organizados, outros não; uns gratuitos outros não; o que pode gerar mais custos. A minha dúvida é se todos os portifólios são realmente analisados, principalmente nos certames mais concorridos, onde há dois ou três dias para análise de centenas de projetos, por três ou quatro jurados. A aprovação ou reprovação nestes concursos não influencia no andamento do meu trabalho. Para mim seria interessante se houvesse concursos voltados para o Expressionismo, ou o retrato. A maioria dos salões é de âmbito nacional; poderia haver mais salões ou certames de artes visuais em nível municipal ou regional, para prestigiar os artistas e a vida cultural de uma cidade, assim como acontece com a música e o teatro. Também seria bom se houvesse mais concursos de bolsas de estudo ou de pesquisa.


P: Você participa do Coletivo 308, um grupo de artistas ligado à arte urbana. Como tem sido esta experiência?

R: O grupo irá completar três anos. Muitos grupos não costumam durar esse tempo, e creio que esta longevidade deve-se ao fato de sermos pessoas maduras, criativas e, acima de tudo, grandes amigos. Nosso trabalho já é reconhecido em Guarulhos (SP), onde nos reunimos, e também por algumas instituições, como o Sesc, que nos convidou para a inauguração de uma unidade em São José dos Campos/SP. Mantemos intercâmbio com outros artistas e coletivos, no Brasil e no exterior, através de nosso blog e da arte postal. Já realizamos bons trabalhos e nossos projetos estão em pleno curso.


P: Algo tem chamado sua atenção na arte atualmente (artistas, mercado, cultura...)? Por quê?

R: Gosto de pesquisar na internet por artistas que trabalham com pintura e retrato: a quantidade de bons artistas, conhecidos ou não, que se pode encontrar é estupenda. Fora da pintura, acho interessantes os trabalhos em grandes dimensões, externos, como os de Christo, e de Rachel Whiteread, que fez moldes em cimento de casas inteiras. Também acho bacana o trabalho de Henrique Oliveira, com os tapumes.


P: Algo mais que queira dizer?

R: Pintura = Jason: não morre.


P: Novamente agradeço sua participação e expresso minha grande admiração por você e pelo seu trabalho.

R: Agradeço a você, Rogério, pela gentileza do convite para esta entrevista. Obrigado, e parabéns pelo blog. Ótimo trabalho.

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Para conhecer mais do trabalho de Eduardo Garofalo, visite o site do artista.

Entrevista realizada por Rogério Dal’ Mas para o Blog Alma do Artista em agosto de 2009.

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